domingo, agosto 19, 2012

Pelo direito de ser chata


Tem dias que eu acordo me sentindo incomodada com o mundo. Isso independe de mudanças hormonais em meu organismo. É a vontade pura e simples de ser chata, de não tolerar situações que normalmente eu aceitaria em nome da urbanidade,  de dizer não quando por conveniência devia dizer sim. Em dias como esses, meus desejos oscilam entre criticar tudo e todos, e entre ficar calada o máximo possível – desdenhando internamente.
Não que eu seja maledicente, claro que não. Mas acho que qualquer ser humano normal já experimentou esse mal-estar generalizado, cujo ímpeto é de jogar na lata do lixo todo tipo de protocolo social, e por um dia que seja, não ceder. Ser chato. Ser impaciente. Ser crítico. Ser humano.
Geralmente, costumo a prevenir quando vivo esse estado transitório. Peço desculpas antecipadas, prevendo os chiliques que estão por vir. Reclamo da demora, da rapidez. Do gosto forte e da falta dele. Reclamo da conta que demorou demais. Critico a falta de senso. É, reconheço. Fico chata de doer. Se eu soubesse reconhecer de longe esse estado em outrem, sem precisar passar pelo desgaste de conversar com estes, eu atravessaria a rua.
O problema é que nem sempre se tem essa opção. Somos obrigados – por escolha ou não – a coexistir com pessoas em dias de chatice. Certa vez, após discutir com o garçom por conta de um pedido meu que havia sido trocado, ouvi a refutação de quem visivelmente discordava das minhas atitudes ao longo daquele dia específico: “Por que não se esforça para driblar esse comportamento tão comum entre as mulheres durante a TPM?”. Bem, não era caso de TPM. Era caso de dia de chatice – que como já disse, no meu caso, independe dessas variações  hormonais.
Homens têm dessas deduções,  como Alvy Singer brigando com Annie Hall em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, do Woody Allen. Existe esse senso comum enraizado na cabeça masculina de que chilique significa TPM. Fomos reduzidas a tal estereótipo a tanto tempo que não sabemos nem como embasar a irritação momentânea, porque é mais fácil colocar a culpa em hormônios em fúria do que ao simples desejo de permitir-se ser chata de vez em quando.
Incuti na minha cabeça que era má ideia se dar o luxo de se sentir intolerável e agir como tal. Vislumbrei que devia desviar desse caminho, pois o outro não era obrigado a aguentar com benevolência. Entendi que era melhor “vencer” a frescura e não me deixar dominar por ela. Ou pelo menos assim eu me domestiquei, por achar que era mais viável acreditar nisso do que ser eu mesma com todos os detalhes desgastantes que fazem parte da minha pessoa. Agi como criança obediente que a mãe manda “engolir o choro”.
Com o tempo acabei ficando retraída, coisa que nunca fui. Sempre fui de falar muito, adorar conversar, debater – e até “responder”. Acabei por perder um pouco o gosto pela discussão, seja boa ou ruim, porque mais uma vez resolvi escolher o caminho de evitar brigas.
Estar (e não ser, vale frisar) chata, no entanto, não é monopólio da mulher. Homem também acorda de mau humor, quer eleger um dia para ser tratado como rei, quer ser compreendido acima de qualquer inquisição feminina. Quer sair para o churrasco sem ter de se preocupar com a hora de voltar. Quer assistir filme até tarde sem se preocupar em baixar o volume da televisão. Quer chegar fedorento do futebol e botar o pé sujo em cima da cama sem ser admoestado verbalmente.
É condição humana ter mutações de humor, porque nem todo mundo consegue deixar um sorriso ligado 24 horas se dentro não se sente bem. O que nessas horas a gente precisa é de compreensão sem pedir, como não precisar cientificar que é estado transitório e que no dia seguinte tudo voltará ao normal. Você não deixou de amar ou admirar a pessoa que está do seu lado só porque vivencia um dia de chatice.
Temos essa atitude perniciosa (e natural) de manter altas expectativas em relação a quem nos rodeia. Depositamos em nossos parceiros confiança extrema, de que é possível reclamar de banalidades sem precisar temer trazer para si o estigma permanente de maçante, insuportável, enfadonho, repetitivo. Queremos ter o direito de ser chatas – ou chatos. No fim das contas, se você não sabe lidar com o pior de outrem, certamente não merece o seu melhor.

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