sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Do céu ao inferno

Eu o observei dormir. Ele tinha uma estranha mania de se conservar na mesma posição a noite inteira e madrugada adentro, não emitia um ruído sequer, não roubava meu lençol. O engraçado é que fazia isso tudo sem deixar de balançar os pés em um ritmo irritantemente sincronizado, balançando a cama de leve, mas não da forma que eu acho mais agradável.
Mesmo que ele não roncasse e não se revirasse como quem fica tostando ao sol – o que era bom – depois de certo tempo o meu desejo mais forte era que ele virasse para o lado assim, meio sem querer, e me abraçasse pra tentar amansar aquele frio terrível inerente a terras que não são as minhas. Só que, cá entre nós, conchinha só é bom mesmo durante os primeiros dez minutos. Depois fica quente, o braço dói e eu acho vital trocar o travesseiro de posição algumas vezes durante o sono.
Observava o relógio trocando o display aos poucos. O odioso aparelho me adiantava que a manhã chegara. À medida que os minutos cresciam, diminuía o tempo que tínhamos juntos. Eu não poderia dormir, não perderia detalhes dos cílios, da boca, dos ombros, dos cachos que caíam sob o travesseiro encobrindo a estampa de florzinhas azuis. Eu precisava vivenciar aquilo com todos os meus sentidos. Precisava guardar aquelas lembranças, e quando voltasse, as manteria em um lugar bem escondido da minha memória, fora do alcance da realidade que insiste em me puxar para longe dele. Só assim elas seriam eternas e intocáveis.
Não me sentia cansada. Nem um pouco. Mas começava a sentir borboletas no estômago porque junto com a manhã, vinha a partida e junto com o avião, decolaria tudo que envolvia aquele universo que tinha me deixado apaixonada. Estava apaixonada e me odiava por isso; sempre fico vulnerável demais, faço muitas perguntas existenciais, gasto muito dinheiro levando minhas amigas pra tomar cerveja e discutindo meu pseudo futuro amoroso, gasto dinheiro para estar junto do cara, gasto paciência tentando entender a mente masculina e perco horas e horas me preparando pra tirar o telefone do gancho e ter bom assunto para desenvolver.
Nele, gostava muito de muita coisa e odiava bastante pequenas atitudes. Amava a forma como ele segurava minha mão. Odiava o fato dele manter aquele status apelativo do orkut. Amava quando ligava domingo à tarde pro meu trabalho enquanto eu estava em pleno plantão de fim de semana somente para "ouvir sua voz", como costumava a dizer com aquele sotaque maravilhoso. Odiava quando não me ligava. Amava quando demonstrava afeto em público. Odiava quando trocava o "qualquer coisa" pelo "amiga". Amava quando cantava pra mim. Odiava o fato disso ocorrer tão poucas vezes...
Acho que a minha boa vontade de compreender idiossincrasias que me parecem idiotas diminui gradativamente com a idade. Incrível, porque eu tinha uma paciência de santa com ele. Mesmo descobrindo, a cada dia que passava, uma novidade incômoda. Não, não tinha nada de condenativo, nenhum passado negro, nenhuma ex-namorada enlouquecida ligando de 5 em 5 minutos me ameaçando de morte. Coisas como essa não existiam, disso aí eu nem poderia reclamar. Eu tinha achado um dos últimos homens puros do universo e olha que eu nem sou beata pra achar isso o máximo. Aleluia, anyways!
As borboletas no meu estômago voavam em vão, porque não poderia levá-lo comigo. Eu faria as malas em poucos minutos, enfrentaria o trânsito e chegaria ao aeroporto com aquele cinismo básico estampado na minha cara. Cinismo de quem sorri, considerando a visita como uma das milhares que sempre rolam nesse trabalho que me leva a viajar constantemente. Verdade de quem chora escondida assim que entra na sala de embarque, carregando o coração na mão, onde também estava seu rosto e seus gostos (que eu tanto reclamo...). Não poderia ficar lá. Não poderia levá-lo comigo. Nem naquele 27 de dezembro de dois-mil-e-sete, nem nunca.

2 comentários:

Hugo V. disse...

As pessoas se vão, os objetos se perdem no tempo, mas as paixões ficam, são eternas e alimentam a alma, tudo muda, acho isso muito lindo (bem caetano hehe) passa-se todas essas paixões pra voc^, pra vida, a final, são suas, se faz o que quiser...
Não me canso de fizer, como o tempo é vigário, parece que ele não gosta/consegue se sincronizar com o nosso tempo, com o nosso querer, godemmet...


"idiossincrasia" HA! ;)


"A vida é maravilhosa se não se tem medo dela."
Chaplin

Hugo V. disse...

Heaven and hell you say, both are here, each takes a whole day, what do you do today?