terça-feira, fevereiro 26, 2008

Keep off

Quando alguém importante vai embora da sua vida, não importa de qual forma, inevitavelmente a gente começa a revisar todas as relações que mantemos. Sejam de sangue, sejam de afeto. Desde domingo, ao voltar do funeral da minha amada avó, eu penso nisso sem parar.
Não é por uma necessidade sobre-humana de divulgar minha dor ao mundo inteiro que eu escrevo aqui, mas sim porque eu acredito que minhas palavras têm a capacidade – mesmo que discreta – de mudar um pouquinho o jeito como as pessoas pensam.
Existe muita, muita mediocridade por aí. Existe gente que é efusiva exacerbadamente; gente que nem conhece a gente e nos têm como confidentes. Gente que a gente encontra por aí, nesses bares da vida, e diz que está com saudade sem nem ao menos ter conversado mais de uma hora conosco. Que diria uma tarde, noite ou madrugada inteira.
Tem gente que a gente beija sem saber porquê; baseado em tão primitivo instinto. Tem gente que a gente dá a mão, os anéis, a cama e dedicação sem primeiro cultivar o mais importante: a intimidade, o gostar puro e simples.
Essas relações medíocres são as mais recorrentes. Elas chegam a encobrir aquelas que realmente existem e nos saltam aos olhos só mesmo quando acabam (pelo menos no plano físico). Eu nunca mais vou ver a mulher que me criou e que eu ainda amo (e vou amar até que nos encontremos novamante), no entanto, me incomoda pensar que muita gente sem grande importância ainda vai tomar meu tempo e a minha saúde. A troco de um instinto humano idiota.
Seria hipocrisia da minha parte dizer aqui que vou barrar todas essas pessoas da minha vida, até porque depois que as relações se fortalecem, vemos o quanto estávamos enganados. Mas isto é, se um dia se fortalecerem. Mas todas as outras – mentirosas, torpes, desnecessárias, cansativas – serão evitadas. Eu cansei de esperar muito de terceiros. Eu devia me prender a quem gosta de mim como eu sou, com todas as minhas manias bizarras e desgastantes, e que quer ficar ao meu lado de verdade; do que a gente que só quer uma companhia qualquer pra sair à noite.
Falei e falo. Tô cansando. Isso é um aviso. Keep off.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Beleza não põe a mesa

"She, who always seem so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them
When they cry"

Eu tenho medo de mim mesma. Finalmente constatei isso ontem após uma série de entraves provocados por adivinha, veja só, quem? Eu não sou daquelas pessoas pra qual você olha e gosta de cara; Deus me deu uma cara de antipática e não há beleza nesse mundo que possa mudar isso. Nunca disse que sou feia; apenas afirmo que não tenho um sorriso cativante ao ponto de me chamarem de simpática. Senso comum que acabei internalizando depois de tantos anos, apesar de ainda implicar de leve com isso.
Ainda assim, tenho percebido que ser como eu sou, digo fisicamente, não é um dos maiores presentes de Deus. Parece cômodo para quem vê de fora. Mas eu tenho estado cansada, cansada de tantas coisas, cansada de tantas situações constrangedoras, cansada de instigar o ódio em outrem, cansada de confusão, cansada de conversas ridículas que tento evitar, cansada de gente sem conteúdo, cansada das dificuldades que emanam dessas “facilidades”.
Começo a invejar pessoas que atraem outros seres humanos somente pela simpatia, pelo sorriso bonito, por um jeitinho único e especial que nasceram com elas. Não que eu não tenha nada disso – creio que tenho sim, minha auto-estima não é baixa não, sei ser agradável, apesar de ter os meus chiliques (normal). Não quero soar superior. Só que ninguém parece querer conhecer esse lado. Como o mundo é medíocre o bastante para se satisfazer somente com o superficial, as pessoas acabam tendo preguiça de descobrir o que se passa dentro da minha cabeça, o que eu quero, o que não quero, o que eu gosto, o que eu odeio, o que eu gosto de fazer nos domingos, a forma como eu repudio quem fala pegando e tudo que me faz ser como eu sou. A situação é crítica ao ponto de alguém querer dividir momentos fúteis comigo somente pela minha aparência. Isso é, definitivamente, repudiável, descartável, não respeitável.
Se beleza não põe a mesa, acho que é por simples e pura indolência dos seres humanos. Não devia ser assim.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Música, música, música

Ontem à tarde eu tive a confirmação de que o Whitesnake vem para a capital baré em maio deste ano. Especulações sempre existiram, apesar d’eu ter ouvido há tempos da boca do meu amigo produtor de shows que a iniciativa realmente rolaria até meados de 2008. Pois bem. Fofocas à parte, devo afirmar que extasiada é pouco pra definir o meu estado de espírito ao conversar com ele ontem por telefone e ouvir o “é verdade, está confirmado”. Enlevada é pouco ao me imaginar ouvindo uma das bandas da minha santíssima trindade de novo, mesmo que o Coverdale já tenha apontado o dedo pra mim em uma noite fervorosa de setembro de 2005 no Rio de Janeiro. Eu já vi o Whitesnake. Mas como descrever a emoção de você ouvir músicas que ama ao vivo? Nunca vai haver nada igual. É como o Angra, que mesmo depois de sete shows no meu currículo, ainda me faz chorar.

Minhas colegas de trabalho insistiam em achar exagero tanta empolgação depois que recebi a notícia. Rebati: “É porque vocês não amam música tanto quanto eu”. A tréplica veio, logo da repórter que também é cantora. “Eu também amo...”. Ok, disso eu não duvido, do contrário, ela não gastaria as poucas horas vagas que tem para colocar o gogó em prática e cantar. E ela canta bem, não discordo. Mas amar música com todo o seu âmago, viver disso e pra isso, eu não sei juro, não sei se existe alguém que eu conheça que tenha tanta devoção como eu.

Como explicar isso?

Tem dias que eu me pego tentando entender como eu poderia descrever a paixão que sinto pela música. Paixão não; paixão é vil, ela vem, te arrasa e vai embora. O amor fica. Amor, companheirismo, fidelidade... é isso que consta na minha definição de sentimentos quanto às notas musicais e tudo que as envolve.

Não conseguiria trabalhar com outra coisa. Consigo me ver facilmente neste meio até os meus anos mais tardios, onde a música é trabalho, amor, diversão e vida. Não consigo me imaginar de outro jeito, não. E se o homem é fruto do meio em que se encontra, eu sou a tese de que encontro no meu estilo music addicted tudo que preciso. Tudo.

Creio que conhecer uma música nova que toque a alma é quase o mesmo que se apaixonar. Pelo menos pra mim. Eu fico com dor de barriga só de ouvir a música. Quero conhecer tudo a respeito, tentar entender o que o artista estava pensando quando a compôs e tenho vontade de escrever na letra em todos os lugares possíveis e imagináveis. A gente não fica um pouco obcecado pela pessoa quando se apaixona? Comigo é o mesmo com relação à música...

Perdi a conta das vezes que ouvi uma canção quando senti que ela me fazia sentir diferente. Perdi conta das vezes que ouvi nos anos passados (hoje sem tanta freqüência, porque evolução é a base da vida e estou sempre aberta à novidades) “I Remember You”, do Skid Row; “The Scientist”, do Coldplay; “Don’t Cry”, do Guns’n’Roses; “Time” do Pink Floyd; “Hallowed be Thy Name”, do Iron Maiden; “Live Forever” do Oasis; “Ironic” da Alanis Morissette”; “Miss You Love”, do Silverchair; “Black Sabbath” do Black Sabbath, “Perfect Strangers” do Deep Purple...

Perdi a conta das vezes que obriguei meus vizinhos (eu não conheco o volume baixo no meu aparelho de som) a conhecerem músicas como “Holy Land”, do Angra; “2nd Dawn” da MindFlow; “Spirits of Sorrow”, do Glory Opera; “Cemetery Gates”, do Pantera; “Man in The Box”, do Alice in Chains ; “Don't Stop Me Now”, do Queen; “Epic” do Faith no More; “Adeus, Menino” da Luiza Possi; “Fool For Your Loving”, do Whitesnake... e também não sei mais quantas vezes fiquei na frente do espelho treinando air guitar ao som de “Tender Surrender”, do Steve Vai; “No Gravity” do Kiko Loureiro; “Prelude do April” do Malmsteen e ainda tentando tocar a bateria de “October 17th” da MindFlow...

Perdi a conta das vezes que cantei por esses tempos os que considero meus “novos hinos”, como “Hollow Years”, do Dream Theater; “Dolphins Cry”, do Live; “The Odyssey”, do Symphony X; “Nothing Can Keep Me From You”, do Kiss; “Dea Pecuniae” do Pain of Salvation, “Lift U Up” do Gotthard...

Enfim, eu não saberia precisar quantas músicas já me proporcionaram borboletas no estômago, mas eu posso afirmar que foram muitas, muitas e sempre... sempre vem uma que eu acho que eu vou ouvir até o fim dos meus dias, daí vem outra e pega lugar de honra no meu iPod. De vez em quando eu acho que só a música salva, principalmente em horas que falta pouco pra eu enlouquecer.
Talvez esse texto seja em vão...
Nunca ninguém vai entender o quanto eu amo música.

ouvindo: minha mais nova descoberta, Crashdiet.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Do céu ao inferno

Eu o observei dormir. Ele tinha uma estranha mania de se conservar na mesma posição a noite inteira e madrugada adentro, não emitia um ruído sequer, não roubava meu lençol. O engraçado é que fazia isso tudo sem deixar de balançar os pés em um ritmo irritantemente sincronizado, balançando a cama de leve, mas não da forma que eu acho mais agradável.
Mesmo que ele não roncasse e não se revirasse como quem fica tostando ao sol – o que era bom – depois de certo tempo o meu desejo mais forte era que ele virasse para o lado assim, meio sem querer, e me abraçasse pra tentar amansar aquele frio terrível inerente a terras que não são as minhas. Só que, cá entre nós, conchinha só é bom mesmo durante os primeiros dez minutos. Depois fica quente, o braço dói e eu acho vital trocar o travesseiro de posição algumas vezes durante o sono.
Observava o relógio trocando o display aos poucos. O odioso aparelho me adiantava que a manhã chegara. À medida que os minutos cresciam, diminuía o tempo que tínhamos juntos. Eu não poderia dormir, não perderia detalhes dos cílios, da boca, dos ombros, dos cachos que caíam sob o travesseiro encobrindo a estampa de florzinhas azuis. Eu precisava vivenciar aquilo com todos os meus sentidos. Precisava guardar aquelas lembranças, e quando voltasse, as manteria em um lugar bem escondido da minha memória, fora do alcance da realidade que insiste em me puxar para longe dele. Só assim elas seriam eternas e intocáveis.
Não me sentia cansada. Nem um pouco. Mas começava a sentir borboletas no estômago porque junto com a manhã, vinha a partida e junto com o avião, decolaria tudo que envolvia aquele universo que tinha me deixado apaixonada. Estava apaixonada e me odiava por isso; sempre fico vulnerável demais, faço muitas perguntas existenciais, gasto muito dinheiro levando minhas amigas pra tomar cerveja e discutindo meu pseudo futuro amoroso, gasto dinheiro para estar junto do cara, gasto paciência tentando entender a mente masculina e perco horas e horas me preparando pra tirar o telefone do gancho e ter bom assunto para desenvolver.
Nele, gostava muito de muita coisa e odiava bastante pequenas atitudes. Amava a forma como ele segurava minha mão. Odiava o fato dele manter aquele status apelativo do orkut. Amava quando ligava domingo à tarde pro meu trabalho enquanto eu estava em pleno plantão de fim de semana somente para "ouvir sua voz", como costumava a dizer com aquele sotaque maravilhoso. Odiava quando não me ligava. Amava quando demonstrava afeto em público. Odiava quando trocava o "qualquer coisa" pelo "amiga". Amava quando cantava pra mim. Odiava o fato disso ocorrer tão poucas vezes...
Acho que a minha boa vontade de compreender idiossincrasias que me parecem idiotas diminui gradativamente com a idade. Incrível, porque eu tinha uma paciência de santa com ele. Mesmo descobrindo, a cada dia que passava, uma novidade incômoda. Não, não tinha nada de condenativo, nenhum passado negro, nenhuma ex-namorada enlouquecida ligando de 5 em 5 minutos me ameaçando de morte. Coisas como essa não existiam, disso aí eu nem poderia reclamar. Eu tinha achado um dos últimos homens puros do universo e olha que eu nem sou beata pra achar isso o máximo. Aleluia, anyways!
As borboletas no meu estômago voavam em vão, porque não poderia levá-lo comigo. Eu faria as malas em poucos minutos, enfrentaria o trânsito e chegaria ao aeroporto com aquele cinismo básico estampado na minha cara. Cinismo de quem sorri, considerando a visita como uma das milhares que sempre rolam nesse trabalho que me leva a viajar constantemente. Verdade de quem chora escondida assim que entra na sala de embarque, carregando o coração na mão, onde também estava seu rosto e seus gostos (que eu tanto reclamo...). Não poderia ficar lá. Não poderia levá-lo comigo. Nem naquele 27 de dezembro de dois-mil-e-sete, nem nunca.