quinta-feira, dezembro 27, 2007

Adeus

"Seems like forever that my eyes have been denied
Home, I'm finally home"

É engraçado como o ser humano consegue se dar certas novas chances na vida mesmo após ter experimentado todo o tipo de sofrimento e eu digo isso em qualquer situação. O fato de isso acontecer com tanta freqüência prova o quão bonito e ingênuo ele pode ser. Bonito porque permite arriscar noites sem dormir por estar tão cheio de dor... Justamente porque se permite ficar noites sem dormir morrendo de felicidade. Daí passar por todo esse ciclo repetidas vezes o faz ingênuo.
Ainda dá todo um frescor conhecer o novo, domesticar o diferente do que estamos acostumados. À primeira vista analisamos o mundo de outras pessoas com um olhar crítico impiedoso, filtrando o que nos agrada e fazendo caretas para os defeitos com os quais nunca conseguiremos (ou assim pensamos) conviver. Se ultrapassarmos desse ponto com sucesso, o que vem depois é lucro.
Acredito que o tempo muda tudo. Pode até ser aliado a diversos fatores, mas sem dúvidas, o grande mestre é o tempo. É com o tempo que esquecemos as dores (aquelas tão doídas que na hora não conseguimos acreditar na possibilidade de cura), os amores, as tristezas, felicidades, lembranças, raivas. Tempo é mudança; e também com ele um contrato tácito vai se estabelecendo com os defeitos para os quais um dia torcemos o nariz. O tempo, e é claro, age sem o nosso consentimento.
Então tudo passa a fazer sentido. A toalha molhada jogada em cima da cama; os gostos estranhos como não apreciar vinho, queijo, camarão, mariscos, peixes, salsicha – gostos quase universais, assim arrisco dizer – viver de música e só cantar (fora do palco) debaixo do chuveiro; se emocionar ao assistir Transformers; a calmaria exagerada; comer seis pães no café da manhã; viver num mundo tão cretino e ainda achar o álcool, o cigarro e o palavrão as piores drogas da atualidade. Tudo. Tudo que um dia variou entre o engraçadinho e o ridículo passa a ser aceito como um charme único e especial da pessoa. Graças a quem? Graças ao tempo.
Os gostos estranhos se tornam familiares, tanto, que viver sem eles é que vira estranho. Mas o tempo não se dá tempo; dizem que o tempo passa rápido. Na verdade o tempo não passa; você passa e o tempo fica. Quando tudo parece harmônico, num estalar de dedos, a história vira de ponta a cabeça. Porque antes da comodidade chegar e criar raízes, você se vê parado enquanto as cores do movimento se misturam, deixando tudo muito confuso.
Nesses momentos o coração avisa que é hora de parar. A dor vem, mais uma vez, nos deixando sem ar para enfrentar os próximos dez passos. Você sente falta da toalha molhada jogada em cima da cama. Daí partir torna-se essencial...

"Por mais que tenhamos consciência do que, de quem nos cerca, os fatos, detalhes ínfimos e tão importantes, pessoas, lugares, cheiros, músicas - só se tornam especiais ao virarem história; a velha mania tão humana de valorizar apenas o perdido. Ou o vivido.
Partir é a coragem de abandonar o mapeado e rumar para o icógnito, sem trilha marcada ou estrada pavimentada. É curtir o nó no estômago diante do novo, essa paisagem tão bela e pouco apreciada.
Viva cada história até o último detalhe, tome até a última gota de todos seus momentos porque não há nada mais reles que abandonar a vida por covardia, esconder-se dela atrás de falsos motivos. Não há nada mais deprimente que alguém que finge partir quando, na verdade, está fugindo. Furtar-se a viver plenamente com toda a dor, alegria, tristeza, desamores e paixões é o mesmo que não ter nascido.
Mas vá, se sentir que precisa ir. Vá, se o que o move é impossível de domar. Não deixe o medo paralisa-lo. Ignore os que não entendem, criticam, alertam, amedrontam, porque esses, enquanto você segue o seu faro, escrutina o desconhecido, permanecerão no mesmíssimo lugar.
Criarão musgo; não sairão do decadente quarteirão da resignação – isso sim é deprimente.
Por isso tudo, estou indo." (Ailin Aleixo)

Adeus.

Um comentário:

Hugo disse...

Godemmet!
Seu texto me fez pensar, é engraçado como as vezes, passeamos sem rumo, apenas caminhando, e como que solto no ar vemos uma folha, que ao ser lida, queima e inflama a mente... Malditas e sábias palavras!