terça-feira, agosto 14, 2007

Ofício de jornalista

Semana passada, ao conversar com uma pessoa que conheci, comentei a respeito de algo que recentemente se concretizou – mais uma vez. Tínhamos bastante em comum, mas acima de tudo, compartilhávamos algo que ao mesmo tempo nos realizava completamente; nos dava uma fama distorcida: o emprego no mundo da comunicação.
As pessoas têm uma visão glamourosa do jornalismo. Principalmente do jornalismo cultural. De fato, todos querem nos agradar. Por que não fariam isso? Sabem o quanto vale uma referência (boa) no jornal, vale dizer, não qualquer um: o jornal de maior circulação da região norte. Isso significa dizer que somente na capital baré (que beira os 2 milhões de habitantes), segundo recente pesquisa, cerca de 50 mil habitantes lêem diariamente o veículo de comunicação em que trabalha esta que vos fala.
Enfim, uma vez que as pessoas notam o poder da comunicação, não hesitam em tentar manipulá-la para seus interesses. Isso inclui pilhas de livros, infinitos CDs (de tudo quanto é ritmo), perfumes, roupas, brincos, sapatos, travesseiros (curioso, mas já ganhei), pen drives – tudo isso sempre chega “de presente” às nossas mãos, presentes dados por quem tem interesse em garantir uma boa imagem perante a sociedade. Isso sem contar os milhares de convites pra eventos (free pass é de praxe), shows variados, viagens e boas comidas que chegam lá pra gente provar.
Tudo bem, se esse é o glamour que as pessoas julgam existir, ele existe. Mas ele pára por aí. Esses presentes não se convertem em dinheiro no fim do mês; esses presentes não nos alegram quando temos que ficar dias de sexta (ou até domingo) até 23h na redação do jornal; esses presentes não pagam nossas contas; esses presentes são só presentes que no fim de tudo, são meras fantasias que servem para iludir os idiotas que se vêem deslumbrados pelo início da carreira.
O jabá é algo muito comum no jornalismo. “Te pago uma bela passagem pra São Paulo, te coloco num SPA com golfe e te dou um Audi TT pra dirigir contanto que você diga que minha empresa é foda e que os carros que fabrico são os melhores do mundo”. Não, meu bem. Comigo não tem essa. Teu carro é lindo, é com certeza! Mas se ele não chegou de 0 a 100 km/h durante o meu test drive, me desculpa, eu vou ter que salientar isso na minha matéria (que foi exatamente o que eu fiz). Sabe por que?
Porque nem de flores se vive. Nem tudo são elogios. E isso, dinheiro nenhum compra. A população pode até querer se enganar, pode até desejar com todas as forças que, ao abrir o jornal, se depare com melhoras na política, na saúde, na educação. Mas não é o que ocorre. Não é o que ocorre porque independentemente da editoria o objetivo de todo o jornalista concorre para um mesmo fim: FORMAR A OPINIÃO PÚBLICA. Queremos um bando de bitolados? Não, porra! Por isso mesmo que é preciso se ressaltar o que há de bom e de ruim SIM, para que todos possam trabalhar para melhorar sempre.
Não trabalho na editoria de cidades, mas já trabalhei. Já cobri manifestação, já sujei meu pé na lama de invasão, já fui no IML (Instituto Médico Legal), já tive que ligar pra uma mãe que havia acabado de ver o filho morrer... tudo em busca da informação.
Mas hoje isso não é algo que faz parte do meu trabalho. Hoje trabalho onde sempre quis: na editoria de cultura. Claro, pois ao contrário do que muitos leigos possam pensar, me dediquei ao máximo para me especializar em um ramo chamado música. E mais ainda em um ramo chamado rock/metal. Pelo simples fato de considerar a música uma forma de eternidade, algo sublime, sensacional, algo que me foge as palavras para rasgar elogios.
Eu vivo de música ontem, hoje, sempre. Quando fizer minha pós em jornalismo cultural na Universidade Metodista, em São Paulo, talvez eu tenha a alcunha – devidamente impressa em um diploma de pós-graduação – mais formal. De qualquer jeito, quatro anos sentada em uma cadeira rabiscada de uma faculdade federal ajudaram, sim, mas não foram vitais para me colocar no posto que conquistei. Senão imagina: repórter de economia teria de ser formado em economia e jornalismo; repórter de cidades teria de ser formado em direito e jornalismo; repórter de cultura teria de ser formado em música/teatro/dança e jornalismo.
O que eu quero dizer, em outras palavras, é que eu nasci pra fazer isso. Independente de ter passado quatro anos em uma faculdade (mas ainda bem que passei, assim sou devidamente reconhecida). Tenho uma facilidade absurda em captar o melhor (assim como criticar, se eu achar por bem) de cada banda, de cada cantor. As palavras fluem quando a gente faz o que gosta.
Desta forma, com ou sem jabá, com ou sem presentinhos, com ou sem elogios, eu continuo a exercer o ofício que amo com todo o prazer. Mas confesso que, é sempre gratificante chegar na redação após um fim de semana trabalhando e receber elogios da diretora do jornal e da editora.

“Parabéns, o GIRO ficou ótimo!”.

A opinião delas, sim, importa. Porque só elas podem me tirar dali. Enxurradas de lamentações vazias de gente que se dói e que preferia o jornalismo comprado pra poder ver somente elogios ligados ao seu nome NÃO ME INTERESSAM.
É, meu nominho ta lá, assinado... admito que sou uma pessoa pública, uma profissional reconhecida (Até mais do que eu sonhava! Bom saber que a ‘juventude’ de hoje em dia ainda lê o jornal) e assumo toda e qualquer responsabilidade pelos meus atos. Escrevi mesmo e preparem-se que hei de escrever ainda muito mais. Críticas, sim. Elogios talvez não. Só os merecidos.

Posted by: Loy*

2 comentários:

Fábio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fábio disse...

Concordo plenamente contigo. É percepitível essa troca de favores que ocorre nos veículos de comunicação aqui em minha região, o que se agrava quando defende interesses de caráter político. É uma pena...