terça-feira, agosto 28, 2007

Amanhã, ou depois...

Ela acorda num pulo. O colchão em que dormem ainda é reflexo da mudança recente, apressada, mas muito desejada pelos dois. Dos poucos móveis daquele apartamento, a cama não está entre os que fazem irresistível falta. Ainda que visto por muitos como de segundas, terceiras, quartas necessidades... o piano sim, para ela, era fundamental. Representava uma lembrança vívida da casa da mãe.

Deixando os lençóis e o lindo moço que amava dormindo, ela corre para sentar ao piano. Ainda bem que não só este ficou de herança. Contava com uma bela voz, belo sorriso, belos olhos... E para elogiá-la, o lindo moço que a amava.

Ao contemplar a vida nova que construía, tão jovem, sentia um arfar desconcertante que mesclava empolgação digna de menina brincando de gente grande, com o medo de acordar na incerteza. Sem sentir o cheiro do café vindo da cozinha de seus pais. Mulher, agora ela escolhe por onde andarão seus pés.

Vencendo as vicissitudes do cotidiano, pouco a pouco, ela resolve desterrar o sentimento de pusilanimidade. Seria injusto continuar assim. Sentada ao piano, ela olhava o lindo moço que amava ainda dormindo... amava-o como ele era, com cabelos grandes, curtos, raspados, bagunçados, arrumados. E o amaria o resto da vida, até o encontro conjunto em um plano metafísico, além matéria.

Percebia que seus antigos escritos raivosos, que se gabava de haver escrito ainda adolescente, se rendiam ao clichê de estar apaixonada. Quando eles brigavam, ela saía, sentava na varanda e fazia cara de emburrada. Ele viria, tocaria seu ombro, e levemente com um beijo na testa, desfazia qualquer raiva. Ela tentava resistir, geniosa como só seu signo poderia ser, mas daquele belo sorriso que amava saía uma gargalhada gostosa que era difícil de manter qualquer pose de irritada.

Amanhã, ou depois... ainda o amaria. Deixava de lado os escritos raivosos. Não, a metade da laranja parecia muito batido. Ela diria: você simplesmente tinha que aparecer. Não sei se na forma de laranja, tampa de panela, pingüim ou qualquer animal monogâmico: é você.

Muitos não traem por respeito à fidelidade, convenção da sociedade. Em contrapartida, não valorizam seus companheiros. Para ela, não precisava nem casar. Amava-o amanhã, depois... ainda o amaria o resto da vida. Traí-lo seria trair seu coração. Então, não sentiria falta de mãos, braços, beijos e abraços alheios...

Seria a filhinha da mamãe, geniosa, apaixonada pelo piano. Mas que havia encontrado um lindo moço que a amava. Era o bastante...

posted by: Loy*
"Oh yeah, we meet again. It's like we never left. Time in between was just a dream... Did we leave this place?"

4 comentários:

Anônimo disse...

Olhar como se nunca tivesse visto, nunca tivesse tocado, sequer tivesse ouvido o som daquela voz. Observar o jeito de longe, como se fossem estranhos, como se nunca tivessem chegado tão perto. Olhar de perto com a curiosidade de quem se aproxima por acaso, antes mesmo de saber quem é. Deixar que ela diga olá, tudo bem?, que conte seu nome, que faça charme pra dizer à que veio, que nem diga água e peça logo um café, antes mesmo de engatar qualquer assunto.
Descobrir coisas simples, ditas sem importância, mas com aquela urgência dos começos, como a cor e a comida favoritas, o signo, a receita de miojo, o chá milagroso pra gripe, a melhor marca de sorvete, com ou sem pickles o seu sanduíche? O melhor sabor, qual é? Sugerir desejos antigos como se nunca ouvira falar deles, escutar do cotidiano como se a rotina nunca os tivesse visitado. Em que rua costumam passar, que horários, quando esticam o dia entrando pela noite. Em que lua?
Falar daquele livro como se não tivessem trocado idéias entre mantas de inverno e chocolate quente. Marcar capítulos, sugerir autores, leituras similares, estilos diferentes. Brincar de sinônimos, recitar dicionários, falar na língua do pê. Entender-se com o olhar. Buscar histórias de criança, como era bom ter quintais, calçada convidando bola, banhos de cachoeira, álbuns de figurinhas. Como foi cruel adolescer colecionando espinhas, calças rasgadas, ouvidos abafando atritos com rock and roll e seus milhões de decibéis. Qual a gíria?
Contar dos afetos, das paixões vividas, das madrugadas doídas, das risadas mais francas. Reescrever a própria história em cartas e bilhetes. Palavras novas em expressões batidas. Mandar poemas. Recitar Bandeira, Manuel de Barros. Comprar os Pessoas. Sebos, Baudelaire sem tradução. Olhos novos para palavras conhecidas. Sussurrar Adélia Prado. Rabiscar guardanapos. Reciclar papéis. Marcar encontros em cartões de flores. Quais flores?
Escutar um cd novo pra comemorar um velho encontro. Velhas músicas pra ouvidos renovados, novos acordes pra velhos arranjos. Assumir o gosto por qualquer brega, confessar vocais inusitados, bandas trash, letras bizarras. Dar-se os braços e entre abraços, dançar a Valsinha do Chico. Notas diferentes para os mesmos amantes. Outros, agora. Sem dó.
Assistir aquele filme como se já não tivessem visto juntos. Perguntar que pipoca ele quer, que jujuba ela mais gosta, se as escolhe pela cor, mesmo que agora nem um nem outro se importe porque são os dois ali, que contam, personagens renascidos ensaiando os melhores ângulos, sem direção ou roteiro. Substituir o The End por Once and Again e legendar a última cena:

Receita de felicidade: Uma paixão, uma vez por ano, 6 vezes ao dia. Pode ser com o homem/mulher de sempre, mas verifique a data de validade no verso da alma.

"Então, os dois deram-se os braços como há muito tempo não ousavam dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar"
[Chico Buarque]


OH....complicaçãoo....

Supernova disse...

o melhor que eu já li até hoje! gostaria de ter escrito.

Anônimo disse...

TY.....

Gostei muito desse que vc escreveu....

Inspirados estavamos...

Anônimo disse...

Esperando por outro post..

;)

.´.