terça-feira, janeiro 03, 2006

As revistas que lemos nas salas de espera

Em cabelereiros, consultórios de dentistas, recepções... enfim, quando estamos a espera de algo mais importante e não temos muito com o que nos distrair, avistamos aquelas revistas. Sim, aquelas. Sentados, nos vemos diante de uma grande pilha de exemplares velhos de fofoca, que por impulso, pegamos a fim de preenchermos nosso tempo com fotos e declarações de artistas, sempre dizendo que a vida está uma maravilha.
"Eu acho que vc deve seguir seus sonhos. Eu segui os meus e veja só, estou na Malhação", diz alguma neo-estrela. "Nunca vou esquecer das minhas origens", diz o pseudo-moralista. "Este homem é o amor da minha vida, que estava tão são razão quando eu o conheci...", diz uma Débora Secco, pseudo-apaixonada.
É meus amigos, a vida destas pessoas sempre parece uma maravilha. Enquanto folheamos as revistas Caras, Contigo, Tititi, Quem e outras do gênero, nos perguntamos porque aquele mar de sorrisos e principalmente, de dinheiro, não nos acomete. Quem algum dia não se imaginou naquela merda de Castelo de Caras, que eu nem sei onde fica?! Ou em um roupão branco de banho, ostentando uma xícara de ouro, pisando em pétalas de rosa e com aquele sorriso colgate estampado no rosto, como quem diz: "Tira logo essa foto zé buceta, antes que este esforço me provoque rugas indesejáveis e que não devem aparecer nem um pouco na novela das 8!"
Eu andei pensando nisso enquanto estava comendo, sozinha, minha torta de Sonho de Valsa lá no Millenium. Eram 12h e eu tinha que estar no trabalho mais ou menos 12:30, então estava engolindo com verocidade a comida. Fiz um pratinho saudável, sem muitos exageros e comprei um pedaço pequeno da torta. Não comprei água, refrigerante ou qualquer líquido, porque minha mãe veio me dizer que a origem do meu buxo era porque eu tomava líquido enquanto comia. Isso faz a barriga inchar e te dá a impressão que vc está mais cheio, mais rápido.
Enfim, por estar atrasada, resolvi comer super rápido e me concentrar para tomar água (sim, água, porque Baré não vende no Millenium e em nenhum outro restaurante de grande porte, o que me causa até cerca revolta, mas isso é assunto para outro dia e outro texto) somente depois de certo tempo após o completo término da refeição. Em meio a tal contexto, eu parava pra admirar o clima de natal que me cercava: casais de mãos dadas, sorrisos nos rostos das crianças serelepes (bonita essa palavra não é?! serelepe...), sinos e bengalinhas vermelhas e brancas espalhadas em meio à decoração temática do shopping, pessoas indo e vindo com sacolas enormes. E notei que os casais me lembravam aquelas pessoas que estavam naquelas revistas idiotas de fofoca, que dizem que a vida só está completa quando acham a sua "metade da laranja", a sua "tampa da panela", a sua "bolinha pro desodorante roll-on", and so on. Ri sozinha da limitação da mente daquelas pessoas. E pensei comigo mesma que a felicidade depende de nós mesmos, e não dos outros, recordando-me de um antigo texto que havia escrito dizendo que devemos procurar alguém para somar com a gente e não nos completar. O ser humano é completo e sempre foi, quem disse que temos necessidade de outra pessoa pra podermos ser felizes?!
Nessa mesma hora, eu me engasguei. Meus olhos enxeram de lágrimas (não de emoção, e sim de desespero), e eu começei a tossir incansavelmente. Na fração de menos de um segundo, senti mais falta de um copo de água mais do que qualquer outra coisa nesse mundo e me senti uma idiota de não ter comprado nada pra beber em uma situação daquelas. Eu não tinha muito o que fazer, estava sozinha, sem dinheiro e sem água, entalada com um pedaço de sonho de valsa na garganta, chorando e tossindo no meio àquela decoração tão singela de Natal!
Foi aí que eu me levantei e fui embora. Sim, nem paguei o estacionamento porque foi tudo tão rápido que nem deu o tempo necessário para me fazerem as cobranças (creio que no Millenium, o tempo limite seja entre 15 a 30 min).
Saí correndo até o carro, tranquei a porta e terminei de dar o meu show de tosse lá mesmo. Até que passou... por um milagre de Cristo, eu consegui expelir o pequeno pedaço de sonho de valsa que tanto incomodava minha garaganta. Nojento?! É meus amigos, mas o drama tem que ser passado com realidade!
Dirigindo a caminho do jornal, pensei... se eu estivesse ali com alguém, uma pessoa que me estimasse, isso teria acontecido da forma como aconteceu?! Teria essa pessoa corrido pra comprar um copo de água pra mim (contanto que não fosse de coca cola, poderia ser até água da privada), batido nas minhas costas e depois que a agonia passasse, dissesse que estava tudo bem?
Até que ponto eu não dependo de ninguém? Até que ponto estar sozinha me satisfaz? Até que ponto almoçar sozinha no Natal, vendo casais felizes de mãos dadas, ao som de "i'm dreaming of a white christmas...", não me atinge?
E pensei nas revistas de fofoca... naquelas pessoas que sempre aparentam serem mais felizes que nós. Porque elas têm dinheiro e nunca se fodem em relacionamentos. Porque sempre que os terminam, parece ter uma fila inacabável para elas, como uma fila de banco, onde a próxima senha sempre está a um número astronômico da senha da vez.
Essas pessoas almoçam sozinhas?
Podem até almoçar, mas tenho certeza de que se elas se engasgarem, alguém correrá para ajudá-las ou elas mesmas terão forças e principalmente, dinheiro, para comprar um simples copo de água (que deve custar no máximo R$1).
Senhores... onde eu quero chegar com isso? Bem, é que percebi que a carência me afetou de uma forma peculiar dessa vez. Eu quis ser a Débora Secco por um momento. Ridícula comparação, eu sei, mas pq a vida de pessoas como ela sempre parece mais legal que a minha?!
Não que eu precise de um Falcão do meu lado. Não é esse meu ponto. Mas digo, às vezes é bom compartilhar da companhia de alguém que se importe com vc, certo? E não de uma foto que de alguém que diz que se importa com vc, mas não sente isso (pra bom entendedor, meia palavra basta).
Eu, que sou a última pessoa a me importar com a vida de famosos, parei pra pensar o quanto essas revistas exercem influência nas nossas vidas. Na minha, nunca exerceu. Mas esse dia que eu me engasguei sozinha, um momento trágico em meio a tanta felicidade de natal, desejei compartilhar da companhia de alguém que se importasse comigo e que depois me levasse para dar uma volta no Castelo de Caras, só pra esquecer aquele episódio horrível.
É, life has a funny way...

by: Loyana Camelo

2 comentários:

Renata Paula disse...

* sabe como eu aprendi a palavra 'serelepe'? hehehe tipo como eu soube do significado? foi o thiago cesar q me ensinou.. ele falou 'imagina a bundinha de um porquinho da india balancando enquanto ele corre num campo' hahahah 'isso eh ser serelepe!" ahahha eu amei isso.. desde entao adorei essa palavra...
*coitada a debora secco com o falcao deve viver assada!
*nunca leio essas revistas de 'espera' eu sempre to cuma apostila da facul da bolsa.. sempre comanda no meu dentista..

Monica/SP disse...

A vida oferece sua sabedoria com generosidade. Tudo nos ensina. Nem todos aprendem. A vida nos pede o mesmo que nos era exigido nas salas de aula: "Acorde", "Preste atenção". Mas prestar atenção não é algo simples. É preciso que não nos deixemos distrair por expectativas, experiências passadas, rótulos e máscaras. Não podemos tirar conclusões precipitadas. A sabedoria alcança mais facilmente àqueles que tem coragem de abraçar a vida e que se dispõe a esperar sem saber, algumas vezes por um longo tempo. Pode ser preciso sofrer. Porém, no final, seremos muito mais do que éramos quado começamos. Existe a semente de uma plenitude maior em cada um de nós." (Rachel Naomi Remen *)

Karla? Loyana? Não sei direito quem é mas Procure o livro "As bênçãos do meu avô" - da Rachel Remen. Talvez você não encontre a versão em Português porque, aqui em SP, por exemplo, está esgotado nas livrarias. Mas vc pode conseguir a versão em inglês. É uma obra maravilhosa que vai te trazer um mundo lindo de sabedoria, amor e esperança, de verdade!

Visite também o site da Rachel Remen e veja a qualidade dos depoimentos de quem leu a obra dela!

Um beijo!